Ana Kesselring e Renato Morcatti em exposição no Paço Imperial

Corpos Estranho, Ana Kesselring
Pirajá, Renato Morcatti
Paço Imperial
28 jun – 26 ago
+ informações aqui e aqui.

Em 28 de junho, o Paço Imperial inaugurou – entre outras ótimas exposições -, duas mostras que colocam em diálogo a arte contemporânea e a produção em cerâmica. Foi uma surpresa agradável conhecer o trabalho de dois artistas brasileiros de poética tão expressiva e ver que a argila, aos poucos, ganha espaço em instituições de arte.

Em “Corpos Estranhos”, Ana Kesselring ocupa o espaço com 15 esculturas que se assemelham a entranhas, partes de órgãos, corpos desmembrados. As peças, esmaltadas e queimadas em alta temperatura, são ricas em tons de marrom e vermelho, lembrando carne. A montagem, como um todo, é simples, elegante e impecável. Os objetos por vezes flutuam nas paredes, por vezes repousam sobre totens de madeira que dão à cena um ar de gabinete de curiosidades. Os corpos estranhos – ou corpos do mundo, como coloca a artista -, criados a partir de moldes de legumes, frutas, ossos e outras coisas, transitam entre o animal, o vegetal e o mineral. Gosto particularmente desse lugar indefinido, onde quase vemos uma forma humana ou quase reconhecemos o formato de uma fruta, mas nos deparamos com a inelutável dureza do barro cozido. As peças tem qualquer coisa de fóssil, apesar do brilho dos esmaltes apontarem para a matéria ainda viva, molhada e quente. Impossível não lembrar da obra de Varejão e de Maiolino, mas Kesselring tem sua própria linguagem: mórbida ao mesmo tempo que de uma delicadeza enorme.

Morcatti ocupa uma grande sala, com obras em diversos meios. A pluralidade de materiais e a criação de um vocabulário que parece costurar todos os trabalhos se alinha a etimologia da palavra que dá título à exposição. Pirajá, em Tupi, quer dizer “repleto de peixes”,  e é também nome do bairro onde o artista tem casa-ateliê, em Belo Horizonte. Os trabalhos são o próprio cardume: nadam, se encostam, se afastam e criam, na superfície do rio, uma movimentação misteriosa, mas muito bonita. A imagem da chave também aparece repetidamente, às vezes evocando peixes, outras vezes falos. É o que garante unidade à toda a sua obra. Sua produção em cerâmica tem muito do artesanal, de algo que é quase etnográfico ou arqueológico. Ao mesmo tempo, as formas e cores buscam no industrial todo um repertório conceitual que coloca o discurso do trabalho no lugar da política, da cidade, do contemporâneo. Em algumas das obras, é possível entrever ferramentas de ateliê, como cones pirométricos, e imaginar os processos de queima (Bizen, em Noborigama) que resultaram em variações de cor. Um deleite para ceramistas e leigos. Uma descoberta preciosa.

Por fim, também no primeiro piso, está rolando a exposição Indícios, da qual faço parte com o trabalho “Lunares”. O desejo de conversar meu fazer cerâmico com minha produção artística é antigo e estou bastante feliz com os resultados. Indícios resulta do trabalho realizado em dois cursos concomitantes voltados para a formação de artistas e curadores. Do curso Imersões Poéticas, vinte e oito artistas foram convidados a participar da exposição, enquanto no curso Imersões Curatoriais, dez alunos refletiram sobre a prática curatorial construindo um projeto de exposição. Os participantes dos Programas foram orientados por Cadu, Cristina de Pádula, Efrain Almeida, Fernando Leite, Ileana Pradilla, Leila Scaf, Marcelo Campos e Tania Queiroz.

 

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